tu já ouviu aquela frase: “se chove, tenho saudades do sol; se faz calor, tenho saudades da chuva”? ela é de José Lins do Rego e me atravessa. tem uma coisa estranha em ser humano… a gente sempre sente falta de algo, até quando sabe, no fundo, que aquilo já não cabia mais.
acho que a gente sempre sabe quando um lugar deixa de ser nosso. não é um anúncio, não tem trilha sonora. é mais sutil… vira incômodo, depois cansaço, depois quase dor. e mesmo assim, a gente fica. fica por uma tal “zona de conforto” que, sinceramente, de confortável não tem nada. é só conhecida. e o conhecido, por pior que seja, ainda engana melhor que o desconhecido.
e aí a gente vai adiando o fim. como se fosse possível parcelar o sofrimento, tornar ele mais leve. mas não é. sofrer de parcelas é só prolongar o inevitável, é transformar um corte limpo em uma ferida que não fecha nunca.
o curioso é que eu não sinto saudade.
não sinto falta daquilo que eu lutei tanto pra terminar. às vezes penso no “e se eu tivesse ficado mais?”, mas a resposta vem rápido: a dor maior seria exatamente essa. continuar.
continuar vivendo algo que eu já juntava coragem todos os dias pra sair. continuar sendo uma versão minha que já não me representava mais. isso sim me assusta.
a vida até pode ser previsível… e isso não tem nada de bonito, é só uma prisão decorada.
eu tenho medo do imprevisível, tenho mesmo. daqueles dias em que nada está sob controle, em que o chão parece meio frouxo. mas ainda assim, isso é melhor do que a falsa segurança de estar em um lugar que já não comporta quem eu me tornei.
ontem alguém do meu passado disse que eu já não sou mais a mesma. e, sinceramente? que bom. imagina atravessar anos e continuar intacta, igual, parada. sem ter virado outra coisa, sem ter se desmontado e remontado em versões diferentes. que tipo de vida é essa que não muda ninguém?
eu não quero caber na monotonia de um destino pronto. não quero olhar pra trás e me perguntar como teria sido se eu tivesse tido coragem.
eu me recuso.
vou mudar minha vida quantas vezes for preciso, sempre que ela deixar de me caber. vou transformar tudo em algo que eu ainda não sei nomear, porque eu não nasci pra viver uma vida só funcional, produtiva, alinhada com expectativas que nem são minhas.
eu quebro rótulos quando posso. desorganizo sistemas quando dá. mas, principalmente, eu não me permito viver uma vida que, no fim, eu vou duvidar se vivi de verdade.
e mesmo assim… ainda tem confusão.
ainda tem essa sensação estranha de estar meio perdida de mim, mesmo estando comigo o tempo todo. tem dias em que nada faz muito sentido, e isso aperta a garganta de um jeito difícil de explicar.
mas mesmo nesse caos, eu continuo escolhendo não voltar.
porque aquele “conforto” que ficou pra trás… nunca foi lar.
era só um lugar pequeno demais pra quem eu estava me tornando.
18 de março de 2026
essa sensação estranha de estar meio perdida de mim
27 de fevereiro de 2026
nenhuma relação acaba do nada
elas vão acabando, com o tempo.
ou se adaptando ao fim, sem que a gente perceba.
em um dado momento do curso do tempo conseguimos entender o exato momento em que tudo ruiu, porque os caminhos pararam de cruzar, os objetivos ja não eram mais os mesmos, e talvez tudo tenha parado um pouco de fazer sentido.
eu queria dizer, sentir, ou tão somente pensar que talvez possa existir uma fórmula pra voltar atrás quando tudo já não é mais como foi, quando a vontade de estar ali já não nos atravessa, quando a rotina fica tão entendiante que a voz que antes era música se torna um ruído que por causar tonturas.
transições de fase, mudanças, ou esses ritmos das coisas da vida vão levando
a gente a decisões que, por hora, quiçá não sejamos capazes de entender.
vão nos atirando ao novo, novos espaços-pessoas-zonas que já nos consideramos aptos a adentrar pra conceder uma nova parte de nós também por respeito a si e ao que podemos nos tornar.
bem-vindas sempre serão as novas fases e os novos capítulos, onde os melhores são sempre
os próximos, e há que desfrutar de uma forma absoluta e intensa, pra gente ter a certeza
de que é nesse agora que se concentra a riqueza e a beleza de tudo aquilo que verdadeiramente
a gente já quis um dia.
20 de janeiro de 2026
um pouco de autosabotagem
eu vi um vídeo agora no Tiktok que falava que a gente tende a procrastinar tudo o que pode mudar a nossa vida.
forte.
soa um pouco como autosabotagem, como conhecimento do risco de vencer justo por saber quem a gente é e do que é capaz. do contrário, insistimos em trabalhos, pessoas, lugares, que não nos atravessam mais, na busca da novidade no que é velho demais pra nos trazer algo realmente valioso outra vez. é fácil se assegurar no conhecido. mas quem disse que existe segurança ali? tudo pode desabar em questão de segundos e a gente pode nem sempre estar pronto pra isso.
a maior do mundo - ou pelo menos uma das - é saber, conhecer, sentir, entender, perceber, o próprio potencial e não ser capaz de quebrar o círculo vicioso de se manter preso em coisas que claramente não tem futuro, não irão além ou muito menos expelir novas partes de você.
eu espero que esse ano eu aprenda.
ou, pelo menos, nessa vida.
BARROS, Joyce Gabriella. Belo Horizonte, MG, Brasil. 20 de Janeiro de 2026.