27 de julho de 2026

ninguém liga tanto assim pra gente

tem uma beleza no desconforto que de alguma forma nos faz movimentar. não sei porque, mas me veio a sensação de quando o pai da gente (ou a mãe, ou algum outro ser no qual somos apegados sem medida na infância) nos deixa na escola nos primeiros dias do ano letivo. aquele desconhecido ameaça sem dó qualquer perspectiva do futuro porque por um longo período de tempo a gente esquece que pode e sabe caminhar sozinho. você se sente invadido por um desconforto sem remédio, por achar que todas as atitudes primárias deveriam partir de você e fica desatento ao mistério do que pode acontecer. mas, felizmente, esse lugar de terror alastrado pelos campos inimagináveis da ansiedade vai dando espaço pra coisas que não são tão "difíceis" quanto aparentavam ser e você vai se envolvendo, domando, e aquela ânsia que por pouco beirava à angústia vai dando lugar ao: "que evidências eu tenho de que isso de alguma maneira daria errado?", segundo minha psicóloga, e as entradas áridas dentro de si que antes estavam sem forças para novos rumos, finalmente volta a sonhar em paz, sabendo que o bicho-de-sete-cabeças que existe dentro de cada um de nós é perfeitamente domável quando a gente lembra que tá todo mundo lutando contra os seus próprios demônios todos os dias e ninguém liga tanto assim pra gente.


BARROS, Joyce Gabriella. 
Belo Horizonte, MG, Brasil.
27 de Julho de 2026.

1 de julho de 2026

“abra espaço para o novo”

abra espaço para o novo

disseram as vozes da minha cabeça, depois de quase um ano me martirizando mentalmente, decidi pedir uma quebra de contrato da minha última experiência como pessoa jurídica. eu odiava estar lá, odiava quando chegava segunda e torcia para que chegassem as sextas. me tornei quem eu mais temia. sedenta pela fuga de uma rotina que me engolia pouco a pouco. a culpa era da empresa? acho que não, porque segundo eles, o mais importante era estar entrando dinheiro. dinheiro esse que eu e muita gente só via através de números fixos mensalmente, ao passo que víamos as demandas crescerem cada vez mais até ficarmos sufocados de tanta coisa inútil pra fazer. eu até gostava um pouco das pessoas. mesmo sabendo que nada daquilo ali era um “laço” verdadeiro ou importante pra eu levar pra vida. até porque partilhávamos de perspectivas sobre a vida diferentes demais pra eu querer manter aquela relação para além do corporativo. 

eu pouco tava me importando com networking

se em meses de empresa nem eu ou ninguém ali foi capaz de gerar novos negócios um para com o outro, porque isso vingaria depois do fim? ah, me poupe. somos só números e eles também. sem discursinho barato de gratidão no LinkedIn, porque a gente sabia que boa parte daquilo ali é um teatro, né? pois bem, cá estou eu, um mês e pouco depois de me ver totalmente sem uma fonte de renda, ou melhor, sem ver o mínimo do mínimo do dinheiro entrar na minha conta a não ser uns juros compostos que me salvaram graças a Deus e ao universo porque eu ainda não tive coragem de colocar outros objetivos em prática. ou talvez ainda não me bateu loucura suficiente pra ir atrás das coisas que eu me prometi que iria. porque sim, embora não pareça, ainda tem algumas responsabilidades fixas nas quais devo arcar, então enquanto isso, vou deixando a vida me levar esperando que em algum momento algum mestre no qual eu possa me inspirar muito seja uma luz nesse momento e me guia para que eu tire de dentro de mim esse bocado de coisa que eu não sei como dizer.

algo muito lá no fundo segue repetindo que se deu certo uma vez, não é possível que em todas as outras não deem. talvez eu só esteja com muita pressa e controladora que sou, acabo esquecendo que as cosas não são necessariamente do meu jeito, mas do jeito que tem que ser.

e se tu me perguntar se eu me arrependo de ter “demitido” “este” “cliente”, a resposta é JAMAIS. eu tinha e tenho muito mais medo de que as coisas ficassem do jeito que estavam do que de como elas estão agora… um misto de surpresa imprevisível onde nada do que eu faça nunca parece suficiente para chegar onde eu quero chegar mesmo sabendo que sempre haverá mais.

BARROS, Joyce Gabriella. 
Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. 
09 de abril de 2026, 12:46.

23 de março de 2026

o tempo exato das coisas


hoje eu fiz uma tiragem de tatot que trazia como conselho central: "quanto mais você tenta controlar tudo por medo, mais ansiedade surge quando você equilibra e confia, o sucesso flui".
há uns minutos atrás eu vi um vídeo que falava sobre o tempo exato das coisas. nem antes, nem depois. o tempo exato. se vem antes não estamos preparados, se vem depois, talvez não vamos perceber ou valorizar aquilo da melhor forma. nada vem sob a pressa. isso me faz lembrar em que tantas vezes as coisas na minha vida aconteciam com um sabor 45' dos segundo tempo. eu acho que não vai dar tempo, não vai dar certo, e aí a vida vem e mostra o contrário, através do inesperado que tudo aquilo já estava a caminho, eu só queria adiar, pra tapar a minha angústia com a peneira. 
uma coisa muito engraçada que me aconteceu esses dias foi que eu tinha um espetáculo teatral que aconteceria pontualmente às 19h40. o meu compromisso anterior atrasou e algumas coisas pareceram dar erradas, como por exemplo, ficar sem internet e ter que voltar pra casa à pé, em um caminho de mais ou menos 1h. pensei em desistir de ir várias vezes, porque teria mil coisas a serem feitas até lá, mas calei a voz da mente e só fui. cheguei em casa, tomei banho, me arrumei, pedi um carro de app e apesar do trânsito, exatamente às 19h40 eu estava dentro do teatro. ou seja, aconteceu. no momento exato. e pra completar, a peça ia atrasar 10 minutos. por dois segundos tive um pouco de raiva porque durante o caminho eu pensei o quão precioso seria se meu compromisso não tivesse atrasado para eu ter esses 10 minutos sagrados ali, mas como não aconteceu, foi debitado no próximo compromisso. mas pelo menos me permitiu respirar... eu andava agitada. mas isso foi muito marcante pra eu ver como as coisas acontecem, de fato, não em cima da hora nem antes ou depois. mas no tempo exato delas. 

BARROS, Joyce Gabriella. 
23 de março de 2026. Belo Horizonte, MG, Brasil. 

18 de março de 2026

essa sensação estranha de estar meio perdida de mim

tu já ouviu aquela frase: “se chove, tenho saudades do sol; se faz calor, tenho saudades da chuva”? ela é de José Lins do Rego e me atravessa. tem uma coisa estranha em ser humano… a gente sempre sente falta de algo, até quando sabe, no fundo, que aquilo já não cabia mais.

acho que a gente sempre sabe quando um lugar deixa de ser nosso. não é um anúncio, não tem trilha sonora. é mais sutil… vira incômodo, depois cansaço, depois quase dor. e mesmo assim, a gente fica. fica por uma tal “zona de conforto” que, sinceramente, de confortável não tem nada. é só conhecida. e o conhecido, por pior que seja, ainda engana melhor que o desconhecido.

e aí a gente vai adiando o fim. como se fosse possível parcelar o sofrimento, tornar ele mais leve. mas não é. sofrer de parcelas é só prolongar o inevitável, é transformar um corte limpo em uma ferida que não fecha nunca.

o curioso é que eu não sinto saudade.

não sinto falta daquilo que eu lutei tanto pra terminar. às vezes penso no “e se eu tivesse ficado mais?”, mas a resposta vem rápido: a dor maior seria exatamente essa. continuar.

continuar vivendo algo que eu já juntava coragem todos os dias pra sair. continuar sendo uma versão minha que já não me representava mais. isso sim me assusta.

a vida até pode ser previsível… e isso não tem nada de bonito, é só uma prisão decorada.

eu tenho medo do imprevisível, tenho mesmo. daqueles dias em que nada está sob controle, em que o chão parece meio frouxo. mas ainda assim, isso é melhor do que a falsa segurança de estar em um lugar que já não comporta quem eu me tornei.

ontem alguém do meu passado disse que eu já não sou mais a mesma. e, sinceramente? que bom. imagina atravessar anos e continuar intacta, igual, parada. sem ter virado outra coisa, sem ter se desmontado e remontado em versões diferentes. que tipo de vida é essa que não muda ninguém?

eu não quero caber na monotonia de um destino pronto. não quero olhar pra trás e me perguntar como teria sido se eu tivesse tido coragem.

eu me recuso.

vou mudar minha vida quantas vezes for preciso, sempre que ela deixar de me caber. vou transformar tudo em algo que eu ainda não sei nomear, porque eu não nasci pra viver uma vida só funcional, produtiva, alinhada com expectativas que nem são minhas.

eu quebro rótulos quando posso. desorganizo sistemas quando dá. mas, principalmente, eu não me permito viver uma vida que, no fim, eu vou duvidar se vivi de verdade.

e mesmo assim… ainda tem confusão.

ainda tem essa sensação estranha de estar meio perdida de mim, mesmo estando comigo o tempo todo. tem dias em que nada faz muito sentido, e isso aperta a garganta de um jeito difícil de explicar.

mas mesmo nesse caos, eu continuo escolhendo não voltar.
porque aquele “conforto” que ficou pra trás… nunca foi lar.
era só um lugar pequeno demais pra quem eu estava me tornando.

BARROS, Joyce Gabriella. Belo Horizonte, MG, Brasil
18 de março de 2026

27 de fevereiro de 2026

nenhuma relação acaba do nada


nenhuma relação acaba do nada.
ou melhor, elas não acabam no dia em que, de fato, terminam.

antes mesmo do decreto final,
o fim já vinha se arrastando, desde muito tempo antes.  

elas vão acabando, com o tempo.
ou se adaptando ao fim, sem que a gente perceba.
em um dado momento do curso do tempo conseguimos entender o exato momento em que tudo ruiu, porque os caminhos pararam de cruzar, os objetivos ja não eram mais os mesmos, e talvez tudo tenha parado um pouco de fazer sentido.

eu queria dizer, sentir, ou tão somente pensar que talvez possa existir uma fórmula pra voltar atrás quando tudo já não é mais como foi, quando a vontade de estar ali já não nos atravessa, quando a rotina fica tão entendiante que a voz que antes era música se torna um ruído que pode causar tonturas.

transições de fase, mudanças, ou esses ritmos das coisas da vida vão levando
a gente a decisões que, por hora, quiçá não sejamos capazes de entender.

vão nos atirando ao novo, novos espaços-pessoas-zonas que já nos consideramos aptos a adentrar pra conceder uma nova parte de nós também por respeito a si e ao que podemos nos tornar.

bem-vindas sempre serão as novas fases e os novos capítulos, onde os melhores são sempre
os próximos, e há que desfrutar de uma forma absoluta e intensa, pra gente ter a certeza
de que é nesse agora que se concentra a riqueza e a beleza de tudo aquilo que verdadeiramente
a gente já quis um dia.

BARROS, Joyce Gabriella. 27 de fevereiro de 2026.
Belo Horizonte, MG, Brasil.


20 de janeiro de 2026

um pouco de autosabotagem

eu vi um vídeo agora no Tiktok que falava que a gente tende a procrastinar tudo o que pode mudar a nossa vida.

forte.

soa um pouco como autosabotagem, como conhecimento do risco de vencer justo por saber quem a gente é e do que é capaz. do contrário, insistimos em trabalhos, pessoas, lugares, que não nos atravessam mais, na busca da novidade no que é velho demais pra nos trazer algo realmente valioso outra vez. é fácil se assegurar no conhecido. mas quem disse que existe segurança ali? tudo pode desabar em questão de segundos e a gente pode nem sempre estar pronto pra isso. 

a maior do mundo - ou pelo menos uma das - é saber, conhecer, sentir, entender, perceber, o próprio potencial e não ser capaz de quebrar o círculo vicioso de se manter preso em coisas que claramente não tem futuro, não irão além ou muito menos expelir novas partes de você.

eu espero que esse ano eu aprenda.

ou, pelo menos, nessa vida.

BARROS, Joyce Gabriella. Belo Horizonte, MG, Brasil. 20 de Janeiro de 2026.