tem uma beleza no desconforto que de alguma forma nos faz movimentar. não sei porque, mas me veio a sensação de quando o pai da gente (ou a mãe, ou algum outro ser no qual somos apegados sem medida na infância) nos deixa na escola nos primeiros dias do ano letivo. aquele desconhecido ameaça sem dó qualquer perspectiva do futuro porque por um longo período de tempo a gente esquece que pode e sabe caminhar sozinho. você se sente invadido por um desconforto sem remédio, por achar que todas as atitudes primárias deveriam partir de você e fica desatento ao mistério do que pode acontecer. mas, felizmente, esse lugar de terror alastrado pelos campos inimagináveis da ansiedade vai dando espaço pra coisas que não são tão "difíceis" quanto aparentavam ser e você vai se envolvendo, domando, e aquela ânsia que por pouco beirava à angústia vai dando lugar ao: "que evidências eu tenho de que isso de alguma maneira daria errado?", segundo minha psicóloga, e as entradas áridas dentro de si que antes estavam sem forças para novos rumos, finalmente volta a sonhar em paz, sabendo que o bicho-de-sete-cabeças que existe dentro de cada um de nós é perfeitamente domável quando a gente lembra que tá todo mundo lutando contra os seus próprios demônios todos os dias e ninguém liga tanto assim pra gente.
BARROS, Joyce Gabriella.
Belo Horizonte, MG, Brasil.
27 de Julho de 2026.